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09/11/2017

   

Sai de cena um ícone do setor

Casa Cruz encerra suas atividades depois de 124 anos no comércio do Rio

Fundada pelo empresário português José Rodrigues da Cruz, em 1893 (cinco anos depois da abolição da escravatura!), a Casa Cruz fez parte da história da cidade do Rio e da vida escolar e artística de milhares de brasileiros, especialmente dos cariocas. O antigo prédio no Largo São Francisco de Paula abrigou a primeira unidade da Casa do Cruz, como era chamada a loja há 124 anos. No último dia 5 de setembro, os moradores do Rio de Janeiro foram surpreendidos com a notícia de encerramento das atividades da centenária loja do Centro e das filiais, localizadas em Campo Grande, Madureira, Nova Iguaçu, Niterói e Tijuca.


O fechamento da principal loja da Casa Cruz afetou a vida de fornecedores, clientes e comerciantes da região do Centro do Rio. “Nesta rua só dava ela, eram muitos funcionários, muito movimento de clientes e trabalhadores. Época de fim de ano e volta às aulas era uma beleza, ajudava muito as minhas vendas na banca de jornal. Depois do fechamento da Casa Cruz, já pensei até em vender meu comércio”, pondera José Pedro Moura, de 49 anos, proprietário da banca de jornal localizada na calçada da principal loja da rede.


Durante seus 124 anos, a Casa Cruz expandiu, acompanhou e participou da evolução nas maneiras de escrever, desenhar, pintar e se comunicar. Quando fundada, a casa oferecia uma centena de modelos de penas e canetas-tinteiros expostas artisticamente nas prateleiras e balcão. Anos depois, recebeu a invenção de um dos instrumentos mais populares do mundo, a caneta esferográfica, que foi patenteada em 1938, na França, mas só começou a ser fabricada em grande escala e distribuída no Brasil cerca de 10 anos mais tarde. A novidade chegou à Casa Cruz causando frisson entre a população carioca, que fazia fila para conhecer e adquirir o objeto que revolucionaria a escrita.


E assim foi por muitos anos acompanhando e fazendo parte da evolução tecnológica. Em qualquer uma das sete lojas da Casa Cruz se encontrava, com facilidade, uma variedade de papéis de gramaturas e cores diferentes, canetas-tinteiros e esferográficas, das mais simples às mais sofisticadas, telas, tintas e pincéis.


De acordo com a representante comercial da Pentel do Brasil, Isaura Reis, uma das principais fornecedoras de material escolar da Casa Cruz há 12 anos, a empresa começou a dar sinais de que não resistiria à crise a partir do período de volta às aulas de 2013. “Ao longo dos últimos cinco anos, vinha sofrendo financeiramente com a queda nas vendas e com a crise econômica do país”, afirma Isaura. Ainda segundo Isaura, outros fatores podem ter contribuído para o fechamento da Casa Cruz. O longo período de obras de revitalização no Centro do Rio para os Jogos Olímpicos prejudicou o comércio local.


Uma pesquisa divulgada pelo Clube de Dirigentes Lojistas do Rio (CDLRio), revela que, só na capital, mais de 4 mil lojas fecharam as portas no primeiro semestre deste ano. De acordo com o órgão, a crise econômica no estado e o aumento dos índices de violência estão entre as principais causas do encerramento de atividades de comércio na cidade. O número de lojas fechadas representa o dobro em relação ao mesmo período do ano passado.


Em caminhada na região do Centro do Rio, antigos clientes reagiram ainda surpresos com as portas fechadas. Muitos não sabiam do encerramento das atividades da papelaria. “A Casa Cruz fechou? Vim até aqui para comprar papel. Há tempos a loja estava muito vazia, o clima dos funcionários não era mais o mesmo. Comprei muito material aqui. Uma pena, uma loja tão tradicional”, lamenta o aposentado João Paulo, cliente de muitos anos da Casa Cruz.


O representante comercial da Tilibra, Sergio Costa, que manteve relações comerciais com a Casa Cruz por 20 anos, lamenta o encerramento das atividades de seu principal cliente e avalia como delicada a situação do setor, mas ainda assim segue otimista. “Foi uma surpresa saber que a Casa Cruz fechou as portas. Esperávamos a recuperação da empresa. Mas percebemos que não é só o segmento de papelaria que vem sofrendo; todo o comércio sofre os impactos de uma crise. Porém, vejo a retomada do crescimento do negócio para os próximos dois anos. Acredito que, em breve, voltaremos a sentir o setor de consumo mais aquecido”, acredita Costa. Procurada por nossa reportagem, a direção da Casa Cruz não se manifestou sobre o assunto.

 

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